A crise e o crime da água no Rio

A crise e o crime da água no Rio

Publicado em:
27/1/2020
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2020 começou com a notícia de que a água dos cariocas estava imprópria pra consumo, contaminada com geosmina, uma actinobactéria que, dependendo da concentração, pode fazer mal à nossa saúde. E então 9 milhões de pessoas no Rio de Janeiro não estão sendo abastecidas com água potável da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) desde o dia 07 de janeiro. E agora? Muita desinformação rolou desde que o anúncio de que não era seguro beber água dos filtros. Na última sexta-feira, o Ministério Público abriu um inquérito para investigar o que de fato tá rolando com essa crise da água no Rio. Muitas notícias surgiram com o descaso político em relação à previsão desse problema, como a existência de um projeto capaz de evitar essa escassez e contaminação que tá parado há 10 anos. 

Nós precisamos falar sobre o nosso abastecimento de água e a nossa relação com os recursos naturais do planeta. Hoje, todas as regiões metropolitanas do Brasil recebem água de mananciais cheios de esgoto, mercúrio proveniente de garimpo e agrotóxicos. Falta vontade política de solucionar os problemas técnicos da crise hídrica e mobilização da população em se empoderar das cobranças e do que têm direito: água insípida, inodora e segura pra beber. 

O Guandu é o principal manancial de água do Estado do Rio de Janeiro. 90% da água do Guandu vem do Rio Paraíba do Sul, que sofre há muitos anos com problemas de poluição. Os principais poluentes dos mananciais pelo Brasil são os esgotos sanitários das prefeituras. Uma notícia de março de 2018 apontou que 124 milhões de litros de esgoto sem tratamento eram despejados no rio por dia. Mas uma notícia de 2020 já destaca que 90% dos municípios da Bacia do Paraíba do Sul não têm tratamento sanitário e que são despejados pelo menos 1 bilhão de litros de esgoto no leito do rio. Segundo o Cidades e Soluções, 22 piscinas olímpicas cheias até a borda de esgoto são despejadas pertinho do Guandu. E nós bebemos essa água.


Mas e aí? Faz o que?

A informação é um primeiro passo super importante pra gente entender a origem da água que a gente bebe e como esse processo é feito, até chegar nos filtros da nossa casa. A escassez e a contaminação da água, infelizmente, não é uma realidade distante pra muitos brasileiros e muitas pessoas pelo mundo. Hoje, estima-se que 72 mil crianças de até 5 anos morrem anualmente por água contaminada. Além disso, um terço da população mundial vivem uma escassez hídrica grave durante pelo menos um mês do ano e 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável em casa.

Então, antes de tudo e qualquer coisa, é importante nós entendermos o panorama do planeta e refletirmos sobre como a água é um recuso tão básico e ao mesmo tempo tão mal distribuído mundo afora. E tem muita gente que trabalha duro pra que esse acesso seja garantido, um trabalho do poder público, extremamente ineficiente e negligenciado. Aqui no Brasil, por exemplo, uma baiana de 22 anos, a Anna Luisa Beserra, desenvolveu uma tecnologia de desinfetar a água não potável da chuva através de radiação solar, de maneira simples e sem a necessidade de intermediários: o Aqualuz. Nós conversamos com ela em uma LIVE essa semana pra entender o projeto, que precisa de ajuda pra se expandir para o semiárido brasileiro - que sofre com a escassez hídrica desde sempre - e também para regiões da África. O projeto é lindo e inspirador, clica aqui pra assistir e saber como ajudar.

E os mananciais?

É preciso investir esforços em recuperar ambientalmente os mananciais, focar em despoluição e, claro, no tratamento de esgoto. A gente perde muito dinheiro ignorando essas soluções. A reutilização do esgoto tratado, por exemplo, pode gerar uma economia de R$ 10 milhões com o uso de 140 mil metros cúbicos de esgoto por ano. O esgoto tratado pode ser transformado em biogás e em um poderoso adubo para alimentar jardins públicos, por exemplo. O Brasil é super dependente de importações de fertilizantes agrícolas e seria uma atitude extremamente viável e inteligente.

Não faltam soluções técnicas que podem gerar empregos e evitar que milhões de toneladas de esgoto sejam descartadas nos mananciais que abastecem as cidades

O professor da UERJ, Adacto Ottoni, professor de Engenharia Ambiental da UERJ, afirmou que os mais graves problemas da situação da água potável e da poluição dos mananciais do Brasil são a ineficiência da fiscalização e os processos mal feitos de licenciamento. Quem fiscaliza? A vigilância sanitária, o INEA e a Agenersa.

Um exemplo incrível que dá pra gente se inspirar é NYC, uma cidade que tem uma população de mais de 8 milhões de pessoas (maior do que o Rio, que tem 6) e que reavaliou a sua relação com o consumo de água o abastecimento da cidade. No final da década de 1980, regulamentos que restringiam o consumo de atividades agrícolas e de uso e ocupação do solo nas bacias hidrográficas da região, pra conservar os mananciais, foram estabelecidos.

O plástico fica em segundo plano

É claro que em uma situação de emergência não existe sustentabilidade que dê conta. Se não podemos ter água filtrada dentro de casa, a única possibilidade é o consumo de águas engarrafadas - em garrafas PET. A venda aumentou 150% no Rio em janeiro. Se você acompanha a gente por aqui já sabe: o mundo consome 1 milhão delas por minuto e elas são um problema sério quando falamos em pós consumo. No Brasil (e no mundo), a taxa de reciclagem é ineficiente - algo perto de 60%. Um dos episódios do Dicas da Fe Cortez foi sobre isso, dá um play

Mas a gente não pode excluir a responsabilidade do poder público também desse problema. Quem pode comprar garrafas de água mineral anda fazendo estoques de lixo de garrafas PET, que vão parar nos aterros sanitários aumentando o problema da nossa gestão de resíduos. Muitas dessas garrafas vão direto pro oceano, fazendo coro ao dado de que descartamos mais de 10 milhões de toneladas de plástico por ano nesse ecossistema.

David Higgins / National Geographic

Além disso, elas também são responsáveis por um outro tio de contaminação: a de microplásticos. O calor estimula que partículas de plástico sejam transferidas para a água. Uma pesquisa da Universidade do Estado do Arizona também identificou que o calor acelera a contaminação da água nas garrafas PET de antimônio, uma substância presente nas garrafinhas. Ele é tóxico em altas doses e foi medido em níveis seguros até 21ºC. E a gente sabe que o calor do Rio de Janeiro atinge temperaturas bem mais elevadas do que essa, né?

#PróximosPassos

Bom, a situação é grave, e muita coisa ainda vai rolar sobre o assunto por aí. O que a gente quer te dizer aqui e agora é: se informa!

Se empodere de saber dia a dia o que tá sendo feito pra solucionar o problema pontual da geosmina, mas especialmente pra conhecer o processo de abastecimento da sua cidade. 2020 é ano de eleição nas prefeituras e só com conhecimento que podemos cobrar o poder público as soluções pros problemas a longo prazo. Porque o problema de abastecimento e falta de tratamento de esgoto não é a curto prazo e não vai ser solucionado com a presença do carvão ativado no Guandu. Precisamos de políticos que pensem em toda a população e que realmente priorizem saúde e a garantia do que é básico por direito. Não existe lutar por um planeta mais justo com a natureza e na regeneração dele sem começar pelo começo. Precisamos de saneamento, de acesso à água potável pra todos e que isso seja feito sem plástico, e sem prejudicar mais ainda a nossa casa e todos os que moram nela com a gente. Lembra disso quando chegar outubro, tá? A gente vai tá aqui pra te dar uma forcinha, claro! :)


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