Mares Limpos é uma websérie quinzenal de 10 episódios que vai colocar o problema do lixo marinho no centro do debate. Afinal, em 30 anos vamos ter mais deles do que peixes nadando por aí e a poluição dos mares pode ser irreversivel. Vamos juntxs mudar esse cenário?

DESTAQUES

A mulher que descobriu a quantidade de lixo que  colocamos no mar

Na Semana do Meio Ambiente, nós lançamos o primeiro episódio da websérie Mares Limpos, “Estamos criando um oceano de plástico?”, em que a Fe Cortez expõe os números alarmantes dos impactos do plástico nos oceanos, no ecossistema marinho e na nossa saúde. Ainda não assistiu? Dá um play

 

Uma das entrevistadas foi a professora Jenna Jambeck, uma norte-americana poderosa, que foi a primeira pesquisadora a definir a quantidade de plásticos que já descartamos nos oceanos. Ela é professora da Universidade de Georgia e engenheira ambiental e até hoje conduz pesquisas sobre o lixo marinho e resíduos sólidos. Um novo paradigma foi criado por ela, que coordena o Grupo de Pesquisa Jambeck, nos EUA.

Jenna participou de um grupo de mulheres cientistas, o Exxpedition, que viajam por aí pra tornar mais claro o que não é visto, desde as toxinas que ingerimos até as que colocamos no mar. Elas são ativistas e especialistas em lixo marinho ao mesmo tempo em que lutam pela valorização da mulher na ciência. Jenna foi para a expedição no Oceano Atlântico com outras 13 mulheres em 2014.  Rola um documentário, vale a pena dar uma olhada.

Ela também é co-criadora do aplicativo Marine Debris Tracker, pra ser usada pelos cidadãos e cientistas do mundo todo como uma iniciativa de registrar o lixo marinho pelo mundo. E por ela ser tudo isso e mais um pouco, resolvemos exibir a entrevista na íntegra que a Fe Cortez fez com ela em Cancun, no Ocean Summit, pra dar voz a uma mulher tão incrível em um conteúdo inédito em português. Lembra de habilitar a legenda, tá?

 
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Sobre os nossos Mares Limpos

O desabafo da Fe Cortez sobre o seu amor pelo mar.

Eu digo que minha história se divide entre antes e depois de assistir ao Trashed, Para Onde Vai o Nosso Lixo, documentário apresentado pelo ator Jeremy Irons, em que ele mostra, ou joga na nossa cara, o resultado de todas as nossas escolhas de consumo. Aquele copinho, aquele canudinho, aquela troca de celular, a camiseta branca, sabe ela?, pois é, tudo isso junto e no ritmo como consumimos está fazendo do Planeta Terra, o Planeta Lixo.

E eu nunca mais fui a mesma.

 

Mas entre tudo o que eu vi no filme, nada foi mais difícil do que olhar para a “Ilha de Plástico do Pacífico”, na verdade uma grande sopa 16 vezes o tamanho de Portugal, feita de plástico. Sim, nossos oceanos são o final da linha, ou da espiral, para onde nosso lixo vai. Depois de saber que 90% das aves marinhas estudadas já ingeriram plástico ou que 1 em cada 3 tartarugas foi encontrada com a barriga cheia de plástico, eu não podia mais ser a mesma.

Eu me descobri ativista ambiental, minha vida mudou em absolutamente TODOS os aspectos, e daí nasce o Menos 1 Lixo, em janeiro de 2015. E o copo do Menos 1 Lixo em junho de 2016. E palestras, programas de TV, colunas, e a nomeação de Defensora da ONU Meio Ambiente justamente na Campanha Mares Limpos, com o foco em combater a poluição plástica que como eu disse acima, termina lá, nesse corpo de água salgada que ocupa 70% da superfície do globo, unindo todos os continentes, numa analogia perfeita de como a humanidade é uma só, afinal o que eu faço aqui, reflete ali. E o ali pode ser na China, que em termos de mundo e de física quântica é também aqui. O lixo que circula o mundo pelos oceanos é a ponta do iceberg da forma como nós humanos escolhemos, a cada minuto, a maneira que queremos habitar e dividir o planeta. E temo afirmar que essas escolhas têm sido muito aquém do que nossa inteligência permite.

 

Mares Limpos é sobre isso. É uma investigação profunda, do que está acontecendo hoje e os caminhos pra gente sair da enrascada em que nos metemos. É uma websérie internacional, a minha primeira nesse formato, onde eu tive a honra e o prazer de conversar com os maiores especialistas no mundo desse assunto. Pesquisadores, cientistas, ativistas, ambientalistas, empresários, e até o Capitão Charles Moore, “o” cara que descobriu aquela ilha de plástico que doeu no meu coração, e que apresenta ela pro Jeremy Irons no filme. Eu não fui até lá com ele, ainda, mas na série vocês vão ver meu passeio no Alguita, o veleiro de pesquisa do capitão. Mares Limpos é sobre o amor pelo mar, não só o meu, que começou bem pequena nas praias do Rio e nas viagens de veleiro com meu tio Carlinhos, onde eu disse pela primeira vez que queria ser ecologista. Mares Limpos é o resgate dessa Fe pequena, que com 10 anos sentiu o chamado, que agora se concretiza sob a forma de Menos 1 Lixo. Assim como eu, a série apresenta a história de tanta gente apaixonada e indignada, essa gente que muda o mundo, sabe. Essa gente empoderada que me inspira a ir além, a ser melhor, a amar ainda mais. Os oceanos e os seres humanos. Tipo o Eric Dieters, um pescador que construiu um barco para limpar a baía de San Diego, e passa seus dias fazendo isso. Entre eles tem também o Afroz Shah, o cara que começou sozinho o que é hoje considerada a maior limpeza de praias do mundo. E ela já dura mais de 120 semanas. E ela resgatou do lixo uma praia linda em Mumbai. Mares Limpos é muito sobre esse poder do indivíduo de mudar o mundo.

 

E por fim, Mares Limpos é sobre esse sonho e essa jornada. É sobre contar essa história de forma acessível, mas mais do que tudo é sobre esse convite que eu te faço a vir comigo. Vem transbordar todo esse amor que você tem no coração sob forma de ação, de transformação e de vitória. Os bons são a maioria e a hora de agir é agora!

Juntos a gente consegue. Juntos somos mais fortes.

 

Te espero toda quinta, 19h no Youtube!

Cuidado, sua vida pode nunca mais ser a mesma...

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Os oceanos estão em perigo. E nós também.

Por Fe Cortez   Essa é a mensagem central de tudo o que ouvi durante 3 dias de conferência no World Ocean Summit, um fórum promovido pela revista The Economist, em Cancún, que reuniu mais de 300 lideranças internacionais, empresários, ativistas, ONGs e acadêmicos. E esse é o mote da nova série que estreia em abril no Menos 1 Lixo, Mares Limpos, mesmo nome da campanha da ONU da qual sou defensora. Pra termos mares limpos, é importante primeiro entender o que está poluindo nossos oceanos, e como evitar que isso aconteça. E minha investigação para a série começa aqui. O fato de ter sido promovido por uma revista cujo teor é a economia, traz para esse fórum um viés diferente daquilo que tenho acompanhado por aí, porque o ponto de vista central desta vez não era o das pesquisas que apontam que se não mudarmos a forma como usamos descartáveis, teremos mais plásticos do que peixes nos Oceanos em 2050. Ou que já temos hoje 8 milhões de toneladas de plástico descartadas anualmente nos mares pelo mundo. Tudo isso foi dito sim, e relembrado por pessoas como Emily Woglom, vice-presidente da Ocean Conservancy, uma entidade que há 30 anos mapeia o que está acontecendo nos oceanos e atua junto às empresas na tentativa de mudar o rumo das previsões, que são todas muito assustadoras. Mas também foi posto na mesa o ponto de vista das empresas, aquelas responsáveis por produzir e distribuir o que vira lixo, e que não podemos deixar de lembrar, nós consumimos, e a abordagem é um tanto curiosa, se posso dizer isso. Muito foi falado sobre pesca, excessiva que está colocando em risco diversas espécies de peixes, o que compromete mais de 1 bilhão de pessoas que dependem dessa economia pra viver. Mas vamos focar aqui na questão dos plásticos, já que falamos por aqui de Menos 1 Lixo.  

    GESTÃO DE RESÍDUOS Esse foi um tema falado muitas, muitas vezes. A visão de vários empresários do setor do plástico, ou de empresas que utilizam muito essa matéria-prima como a Coca Cola, é que o problema não é a quantidade de plástico que colocamos no mundo e sim a falta de gestão de resíduos, coleta, nas cidades, para que todo esse plástico possa ser reciclado. O fato é que 80% do lixo presente nos mares hoje, vem da terra

, e uma enorme quantidade dele, vem de rios, em lugares como a Ásia, onde o “progresso” está chegando, e com isso o consumo aumentando, mas como na maior parte dos países em desenvolvimento, a infraestrutura não acompanha a chegada desse “progresso”. Temos sim uma questão de infraestrutura, mas com certeza temos uma grande questão de quantidade. Negar os fatos ou assumir que a reciclagem vai resolver todos os problemas é um tanto quanto otimista, ou até perverso, porque coloca mais uma vez a responsabilidade em uma terceira parte, no caso os governos.  

  Um das mesas que muito me chamou atenção era um painel de discussão chamado “Aumentando o sistema de gestão de resíduos nas cidades”. Nela estavam presentes David Clark, VP de sustentabilidade da Amcor, uma das maiores fabricantes de embalagens plásticas do mundo, Lisa Emelia Svensson, Diretora da ONU Meio Ambiente, Rob Kaplan, representando a Closed Loop Partners, uma empresa que investe em gestão de resíduos e reciclagem em cidades, e Richard Northcole, da Covestro, uma empresa nova, que produz polímeros de alta tecnologia (leia-se vários plásticos, mas nenhum deles destinado a produzir descartáveis). A mesa se propunha a discutir como aumentar a taxa de reciclagem nas cidades, sim, ainda estamos falando em reciclar, quando a economia circular está aí dizendo que a reciclagem diminui o valor dos materiais, e muitas vezes a qualidade desses materiais. O curioso é que não havia um representante de cidades, seja de governos ou se sistema de limpeza urbana. Como discutir esse tema no meio de empresários interessados em vender plástico? Pois é, também não sei muito como explicar. A Amcor lançou ano passado um compromisso global no qual se compromete em colocar no mercado apenas embalagens recicláveis ou reutilizáveis até 2025. Pra isso, ela se juntou à Ellen MacArthur Foundation, uma fundação de economia circular que trabalha com diversas empresas para auxiliar nessa transição da economia linear que cria coisas com objetivo delas virarem lixo, para a circular, onde essas mesmas coisas são desenhadas para retornarem ao mercado. Se você nunca ouviu falar nisso, vale assistir a esse vídeo aqui:   https://www.youtube.com/watch?v=9GorqroigqM   E o David, em entrevista para mim, assumiu que o assunto é novo, e que eles ainda não sabem como resolver o problema de seus produtos serem assassinos em série de milhares de espécies. RECICLAGEM AO INVÉS DE REDUÇÃO Em outro painel, Ben Jordan, VP de sustentabilidade da Coca Cola, dividiu as falas com Alexis Haas, da Adidas, David Lear, da Dell, Frederic Michel, da Sky Ocean Ventures, e Erin Simon, do WWF. A Coca Cola se comprometeu em até 2030 recolher e reciclar todas as embalagens que coloca no mercado, ou equivalentes, para cada garrafa PET colocada, uma ser retirada e reciclada, mesmo que de outra marca. A iniciativa é maravilhosa, mas 2030, é muito longe. Alguns especialistas afirmam que temos apenas 5 anos pra mudar esse panorama. A Sky por outro lado, se comprometeu a não ter nenhuma embalagem de plástico descartável em seus produtos, ou descartáveis em suas instalações até 2020. E afirmou com muita segurança que isso é perfeitamente viável. Quando perguntado por mim sobre latas, ao invés de PET, principalmente no Brasil, Ben respondeu que optar pelo plástico era uma estratégia mundial da empresa, porque os consumidores querem ter muitas opções de embalagens. Será mesmo? Ou será de fato uma questão de preço? O plástico é muito mais barato que o alumínio, e também tem valor de mercado infinitamente menor, então jogar na conta de nós consumidores que a gente quer embalagens de plástico é um pouco forte.  

  NOVAS TECNOLOGIAS Já a Dell e a Adidas têm programas de retirar plástico dos oceanos e transformá-los em outros produtos. Tênis e roupas no caso da Adidas, e embalagens, no caso da Dell, que continuam se transformando em lixo, vamos combinar. A Adidas, segundo seu CEO citado pela Alexis, “é uma empresa de plástico” já que as roupas, acessórios e tênis vendidos por eles têm em suas bases polímeros vindos do petróleo, e por isso também se preocupam que esse plástico todo acabe nos oceanos. Eles produziram em 2017, 1 milhão de pares de tênis feitos de redes de pesca e plástico retirados dos oceanos, e esperam vender 5 milhões em 2018. A questão é que implementar toda essa cadeia de logística reversa ainda é muito caro e uma estrutura precisa ser montada. Se por um lado sobram redes de pesca e plásticos às toneladas nos oceanos, a tecnologia e pessoal pra retirada ainda não existem. Em nenhum momento algum deles negou que o problema existe, e ambas as empresas estão sim se movimentando para mudar, a única questão é o tempo da mudança.   PRECISAMOS RENEGOCIAR NOSSA RELAÇÃO COM O PLÁSTICO Em um dos painéis que mais me chamou atenção, Emily Woglom, Vice Presidente Executiva da Ocean Conservancy, colocou talvez o ponto mais sensato em toda a conferência, no que diz respeito ao plástico nos oceanos, que precisamos renegociar nossa relação com o plástico. Nesse painel estavam presentes John Hayes, CEO da Ball, maior produtora de latinhas de alumínio, que são infinitamente recicláveis, e no caso do Brasil têm índices de reciclagem na casa dos 98%, Fernando Musa, presidente da Braskem, maior produtora de plástico do Brasil, das Américas e uma das maiores do mundo. Por um lado Musa tentava convencer as pessoas da necessidade absoluta do plástico nas nossas vidas por ele ter permitido um avanço impensável na civilização e diminuição de emissão de CO2, porque como ele afirmou, um carro com muitas partes feitas de plástico é muito mais leve, e consome muito menos combustível, logo, emite muito menos gases de efeito estufa. Sim, estamos todos de acordo nesse ponto Musa, mas precisamos mesmo de sacolinha de mercado, canudinho e copinho descartáveis de resinas plásticas sem nenhum valor de mercado? Eu digo que não, a Emily diz que não, e diversas pesquisas pelo mundo dizem que não. Argumentar que o plástico é fundamental nesse ponto é distorcer a questão, porque até onde eu tenho visto, pesquisas não apontam que plásticos de carros ou de bens duráveis são a grande ameaça, e sim os descartáveis, single use plastics, que têm uma vida útil de uso de menos de 10 minutos. 35% de todo o plástico usado no mundo é usado por apenas uma vez, por até 20 minutos.  

  Pra mim, o que fica claro depois de 3 dias intensos de discussão a respeito de como solucionamos a questão no que diz respeito aos plásticos, é quem paga essa conta, porque no final é isso, o plástico só é baratinho porque ele não paga pelas externalidades, que são seus efeitos colaterais. Matar milhares de vidas marinhas é apenas um deles. Chegamos em um momento em que os dados estão aí, não dá mais pra negar. Como muito bem colocou o ex presidente da Costa Rica, e fundador do Ocean Unite, que promoveu esse fórum junto com a The Economist, José María Figures, metade do oxigênio que respiramos vem do mar, cerca de 1 bilhão de pessoas no planeta dependem do ecossistema dos oceanos como fonte primária de proteína, e mesmo sendo o maior ecossistema do mundo, conhecemos menos de 5% desse universo. O oceano une o planeta inteiro, ele é um só, como nós somos um só. E para que possamos continuar vivendo acima da superfície das suas águas, precisamos respeitar, recuperar e agir agora pra preservar o que está embaixo dessas águas, afinal de contas, o plástico não asfixia só peixes, ele é um sintoma de uma sociedade que descarta tudo, inclusive aquilo que a faz viver, o meio ambiente. Por isso precisamos repensar a forma como existimos enquanto sociedade, e todos precisam estar nessa mesa de discussão. Aqueles que querem manter seu conforto do copinho descartável pra viagem, aqueles que produzem esse copinho e aqueles que criam as leis e infraestrutura pra recolher esse copinho. Ou seja, precisamos sentar e negociar todos, sociedade civil, governos, empresas e academia. E a nossa parte? Pressionar pra que as mudanças aconteçam. A pressão popular é que vai mudar o jogo. E essa foi a segunda maior mensagem do Forum, a de que juntos somos mais fortes e conseguiremos sim mudar esse jogo. Que 2018 seja lembrado como o ano em que o planeta se uniu e a virada começou, vamos nessa? Comece assinando seu compromisso de eliminar um desses descartáveis da sua vida, clicando

aqui. E aproveita pra chamar mais 10 amigos pra fazerem o mesmo. Somos todos protagonistas nessa história, e temos a mesma força pra escrevê-la, apesar de nunca terem contado isso pra gente...

 

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