O que um selfie, um golfinho e as suas atitudes têm em comum?

Publicado em:
23/2/2016
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Há algumas semanas minha timeline foi invadida por golfinhos. A sua também deve ter sido. Na verdade a foto era de um mesmo golfinho, compartilhada incessantemente nas redes sociais. A história parece um daqueles posts do site Sensacionalista, de tão surreal que é. O animal em questão morreu após ser retirado da água para "agraciar" as selfies de alguns banhistas na Argentina. Não quero abrir discussão quanto ao egoísmo do ato em si, mas sim para o que aconteceu a partir daí. Muitas pessoas compartilharam a foto, realmente indignadas com o fato, com a futilidade humana, com a relação do homem com os animais.

Pois bem, eis então que surge no facebook uma segunda foto: uma selfie, um homem em primeiro plano e atrás um golfinho nadando em águas claras. "Aprendam! É assim que se tira foto com golfinhos", dizia a legenda. Não dava pra ver se ele estava em mar aberto, ou se num desses parques aquáticos criados para que o homem possa nadar e tirar fotos de forma "segura" com os animais. Eu me perguntei se o homem da foto e também quem a compartilhou, faziam um link entre as situações e as diferentes formas de egoísmo. Será que esse homem e todos os outros que pagam ingressos para ver golfinhos em um "ambiente seguro", não entendem que as duas situações são na verdade muito parecidas?

Pois sim, nos parques aquáticos, animais selvagens são aprisionados e treinados para o espetáculo que satisfaz ao... ser humano. Assim como os inocentes banhistas que tiraram um golfinho da água rapidinho, só pra uma foto. Pra quem ainda acha que os bichos são bem tratados, dá um play no trailer do documentário Blackfish, disponível no Netflix e tire suas próprias conclusões. 

 

Corta para a mesa do bar. Eu estava lanchando com uns amigos quando um deles pegou um canudo e eu rapidamente falei "canudo não dá! Você sabia que se continuarmos assim, em 2050 teremos mais plásticos que peixes no oceanos? A vida marinha tá pedindo socorro e nós vamos pedir também." Ele me olhou, sorriu, e acabou utilizando o canudo. Quando todos terminaram e eu deixei um pedaço do sanduíche no prato, ele me disse: "com tanta gente passando fome você vai desperdiçar, vai jogar comida fora?". Eu guardei o pedaço num potinho que tá sempre na mochila e respondi: "se você não parar de usar canudo, mais gente vai morrer de fome. Já que 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo dependem do peixe como sua principal fonte de proteína e até 3 bilhões de pessoas dependem de áreas marinhas e costeiras para subsistência, incluindo a pesca, o transporte, o turismo e o comércio". Não se espantem com a minha resposta, dados como esses não saem da minha cabeça. Lidar com isso diariamente deixa rastros. E eu também poderia ter citado os estudos que apontam que 35% do plástico consumido são descartados após 20 minutos de uso (falaremos em breve sobre isso), além de muitos outros dados. Mas calei, e ele também. Acho que pela primeira vez ele fez um "link sustentável" entre o consumo dele, a situação dos oceanos, e a fome de milhares de pessoas. Situação 3. Essa infelizmente é clássica! Preciso assumir que já peguei minha mãe algumas boas vezes jogando a bituca do cigarro na rua. O que me pergunto é: como ela, que desde que me entendo por gente me ensinou a jogar o lixo na lixeira ou guardar na bolsa até chegar em casa, hoje o joga na rua?  "Aqui não é zona sul. Não é tudo limpinho e esse é o último dos problemas que enfrentamos diariamente", disse d. Ligia um pouco desesperançosa com o dia a dia da vida na Pavuna, um dos bairros esquecidos no subúrbio do Rio, que recentemente ficou mais de 36 horas sem luz. Mas eu entendi muito bem o que ela disse pois passei boa parte da minha vida ali. A questão é que ela também precisava me entender. Respirei e retruquei "Não reclama depois quando a chuva cair, tiver enchente, não puder sair de casa, e tudo mais. E quando os vizinhos reclamarem vou falar que você contribui pra isso. O resto a gente corre atrás e muda com o tempo, mãe. Acredita!" Ela sorriu, catou a bituca do chão e disse que não podia pensar em faltar o trabalho (presa em casa por conta de uma futura enchente). É, acho que a minha coroa já sabe o que é um "link sustentável".

Eu poderia continuar com mais umas 100 situações como essas, mas acho que vocês já entenderam o que quis dizer com essa expressão "link sustentável". Não se trata de um novo conceito, algo a ser premiado ou qualquer coisa do tipo, é apenas o modo que encontrei para tornar a ligação entre a ação e a reflexão das práticas de cada um, mais simples. Como acontece com vocês? Normalmente vocês fazem esse link? Minha esperança é que as pessoas comecem a fazer. Talvez assim entendam que consumo consciente é muito mais que separar ou reciclar o lixo, é muito mais que comprar ou não orgânicos. Que não adianta respeitar apenas o seu animal doméstico. Que a etiqueta da blusa não fala nada se vem com o "bônus"do trabalho escravo no histórico.

Talvez entendam muitas outras coisas, inclusive que nós não abraçamos árvores (até abraçaríamos  pois contribuem muito com o planeta), mas queremos e fazemos muito além disso! E você com reflexões e atitudes diárias, também pode fazer! Pra terminar, fizemos um post simples na semana passada, quando rolou o assunto do golfinho, e a legenda dizia: "Não precisamos da imagem de um golfinho morto pelo desrespeito do ser humano. Precisamos todos de reflexão em nossas relações com qualquer ser vivo." No comentário de uma seguidora veio algo ainda melhor... "Exatamente o que eu penso! O ser humano se colocou no centro da criação humana. Mas ele não é! Somos parte do todo! A parte que se acha evoluída. Mas somos totalmente interdependentes." Obrigada, Beatriz! Pois sim, nós somos. E reconhecer isso é fazer o link sustentável! Entenderam o que um selfie, um golfinho e suas atitudes têm em comum?

Menos 1 Lixo
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