Especial Água | E quando não existia saneamento básico?

22/3/2018

Você já se deu conta de que há pouco tempo se jogava o lixo e os excrementos diretamente no mar? E que não havia qualquer preocupação com matérias-primas não biodegradáveis, como o plástico e o isopor, porque eles não existiam? Restos de comida, roupas e tudo o que não poderia ser mais aproveitado era, geralmente, enterrado no quintal. Naquela época (e há pouco tempo, já que o consumo excessivo teve seu estopim só depois da Segunda Guerra Mundial), nada era facilmente descartável. As coisas levavam mais tempo pra serem produzidas e não tínhamos a política da urgência. E a melhor parte é que tudo era biodegradável, afinal, o plástico é uma invenção da década de 1940. Na Idade Antiga, a galera se deu conta de que lixo e água suja resultavam em doenças e que era preciso prestar atenção nisso. A palavra saneamento significa higienizar ou tornar saudável. Na Roma antiga, as ruas com encanamentos eram também fontes públicas que separavam a água pra beber das outras necessidades, na tentativa de prevenir doenças. Na Grécia, as fezes eram enterradas pra evitar a exposição pública, evitando também epidemias. As primeiras galerias de esgoto foram pensadas na Babilônia, antes de Cristo, através de um planejamento urbano super complexo. O famoso aqueduto Aqua Apia do Império Romano tinha 17 km de extensão e foi a primeira vez que rolou saneamento básico de verdade.  

  Mas a gestão de saneamento construída pelo Império Romano ruiu junto com ele. Já na Idade Média, o governo deixou de se envolver com a questão da água e isso passou a ser um problema coletivo, com famílias cavando fossas nos quintais e pagando pelo transporte de água dos rios para uso próprio. Na Idade Moderna, a água era distribuída por sistema de canalização, especialmente da chuva. No século XIX as coisas começaram a evoluir. Em 1829, a França determinou prisão àqueles que despejassem produtos capazes de matar os peixes. Ainda nesse período, 180 mil pessoas morreram na Europa por causa da peste também por conta da contaminação da água e a visão higienista ficou bastante popular, conectando saneamento à saúde.  

  E no Brasil? O primeiro sinal de saneamento é ainda do século XVI, quando Estácio de Sá escavou o primeiro poço pra abastecer a cidade do Rio. Mas só em 1940 que os serviços de saneamento começaram a ser comercializados. No Brasil do século XIX, não existia ainda um sistema de esgoto e o despejo do que não era enterrado era feito pelos escravos, já que as casas não possuíam banheiro como conhecemos hoje. Esse resíduo era recolhido em barris que ficavam debaixo das escadas e ou em fossas feitas no chão. Quando cheios, eram transportados pelos escravos que carregavam na cabeça até o mar. O transporte era feito, no geral, durante à noite e em dias de chuva, os barris eram esvaziados na rua mesmo, pra que as águas levassem tudo pro mar sem esforço. E o que era despejado tinha um nome: as águas servidas. Rio, Salvador e Recife eram as cidades mais visadas na falta de higiene e no inchaço populacional e a prática começou a preocupar os governantes, que tentavam regulamentar esse despejo, colocando latrinas móveis pela cidade com tampas pra evitar mau cheiro e doenças. Essa ideia gerou uma charge bem famosa do caricaturista alemão Henrique Fleuiss em 1861.  

Os viajantes que vinham pro Brasil sempre reclamavam da falta de higiene do país e dos habitantes no século XIX. No Rio, fossas sanitárias foram proibidas, por exemplo, por conta da pouca profundidade do lençol freático e as necessidades eram todas jogadas no mar. Esses escravos, que carregavam os barris, eram chamados de tigres, porque o conteúdo caía pelo tronco dos rapazes e, pela grande presença de ureia e amônia, ficavam com listras bancas, contrastando com a pele negra. Essa prática rolou no Rio de Janeiro até 1860 e no Recife dois anos mais tarde.  

  Em 1867, os jornais denunciavam os projetos de sistema de esgoto que não saíam do papel, já que o número de latrinas não acompanhou o aumento populacional. Hoje, o saneamento ainda é uma questão muito neglicenciada no país e já falamos disso nesse post aqui. No país, menos de 85% da população é atendida com fornecimento de água tratada. Há dois séculos, era possível compreender a ideia de que se despejava lixo no mar,  tanto pela falta de informação, quanto pela falta de resíduos que demoravam tanto tempo pra decomposição.   Hoje, com a quantidade de plástico de consumimos, a situação é MUITA e já temos consciência de que não pode jogar nada no mar, né? E por que isso continua assim? Em 2050, vai ter mais plástico do que peixe nos oceanos e as nossas águas já não dão mais conta de tanto lixo. Vamos mudar isso pra ontem?

Foto do banner: The Wasted Blog
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