Quem são as mulheres do cinema?

Publicado em:
10/3/2019
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Desde criança, quando via desenhos animados e filmes eu raramente me identificava com a personagem feminina. Anos se passaram, e eu, tendo me formado em cinema, consegui identificar a origem disso: não é que as personagens femininas sejam ruins... elas são MUITO incompletas!

Um dos sites mais interessantes pra pesquisar a fundo os arquétipos e situações comuns na arte é o TV Tropes, e eles têm um artigo chamado Princípio Smurfete. Nas obras que seguem este princípio, temos um elenco completamente masculino, com apenas uma mulher — e que muito frequentemente não tem uma personalidade concreta, a personalidade dela é “ser mulher” (Men act / Women are). O Princípio Smurfete também é danoso a longo prazo para as crianças, porque ele alimenta a ideia de que os homens têm suas próprias peculiaridades e embarcam em aventuras, enquanto as mulheres estão ali servindo à história deles, apenas existindo.

Segundo este artigo da Reel Girl, as mulheres representam 51% da população, porém são minoria no imaginário de personagens e em posições de poder na vida real. Esse é apenas o sintoma, porque uma das causas são tropes (fórmulas) como a do Príncípio Smurfete. Você já deve conhecer várias outras, como a Donzela Indefesa, a Femme Fatale, e uma das que mais me revoltam, Never a Self-Made Woman, que traz uma mulher em situação de poder ou destaque, porém sempre questionando seu mérito de estar ali (como por exemplo a namorada do Thor, nos filmes Marvel, cujo pai era astrofísico e recebe orientação do colega dele, porém o mérito de obter os conhecimentos dos eventos que se desenrolam no filme não é por ela ser astrofísica, mas sim por namorar o fortão que está envolvido em tudo).

E qual seria a solução? Um elenco cromossômico? Um elenco improvavelmente feminino? E se fosse um elenco de gênero balanceado? Todas estas fórmulas podem servir em favor da representatividade ou ir contra ela. A linha entre homenagem e exploração é muito tênue, e muitas personagens sexualizadas acabam sendo erroneamente caracterizadas como empoderadas, só por serem duronas ou por terem personalidade.

Continuando no universo de super-heróis, veja a Mística de X-Men, personagem interpretada na nova fase pela Jennifer Lawrence. Poderosa, letal... E com um corpão pra todo mundo babar. Essa nova fase da Mística é ainda mais problemática pelo fato de ela passar mais tempo “normal” do que azul, traindo a própria origem da personagem e a filosofia de seu lado na guerra de X-Men, porém justificando os milhões de dólares na contratação de uma atriz vencedora do Oscar. Afinal, pra que contratar alguém por tanto dinheiro e pintar a cara dela e encher de escamas, não é mesmo Hollywood?

Ilustração Mike Michell

Um debate muito importante apresentado nos anos 90 foi o Teste de Bechdel, criado por Alison Bechdel na tirinha Dykes to Watch Out For. Segundo os critérios, a obra passa no teste se contiver:

1) duas mulheres

2) que têm pelo menos uma conversa

3) falam sobre algo que não seja homem (ou interesse amoroso).

Pode parecer simples, mas é bem mais difícil do que parece, especialmente se considerarmos a época em que foi desenvolvido.

Hoje em dia os estúdios já estão cientes do teste, e por isso temos visto uma representação crescente das mulheres em obras de grande orçamento — o que, infelizmente, não refletiu na quantidade de mulheres por trás das câmeras: somente 4% de diretores, 3% de diretores de fotografia e 13% de roteiristas são mulheres dentre os 100 filmes mais lucrativos de 2018.

Enquanto mulheres, entendemos nossos corpos e mentes de maneira diferente dos homens. Sabemos quando uma heroína parece ter uma roupa desconfortável demais para lutar, ou quando uma personagem usa salto e maquiagem num contexto totalmente nada a ver, só pra ficar mais bonita (estou falando com você, Jurassic World!). Além disso, mesmo que o filme passe no teste de Bechdel, não significa que ele é “mais feminista”, ou se o filme não passar, ele também pode ser uma ótima representação de uma mulher (vide Gravidade, onde há somente uma personagem mulher — que é incrivelmente foda!)

Podemos criar inúmeros testes e parâmetros, mas a melhor representação feminina se dará quando tivermos (adivinha!) mais mulheres na indústria. Mais mulheres em posições predominantemente masculinas (você acredita que a primeira mulher a ser indicada a um Oscar de direção de fotografia foi Rachel Morrison, por Mudbound - Lágrimas sobre o Mississippi em 2018?) e mais mulheres com as canetas do poder nas mãos (somente 18% dos produtores executivos dos filmes mais lucrativos de 2018 eram mulheres): isso é o que muda a nossa representação na mídia.

Faço um convite pra você: quando começarem os créditos do próximo filme que você for ver, fique ligado nos nomes pra ver quantas mulheres você encontra — especialmente por trás das câmeras. Nunca imaginei que estudar e fazer cinema fosse um ato de resistência, mas é. Ocupar espaços, contar histórias, mostrar mulheres “reais” são atitudes valiosíssimas na nossa sociedade. E enquanto espectador, busque filmes que retratem quem somos. Seja exigente, o cinema pode ser melhor.

A Lully entende muito de cinema e foi uma das primeiras youtubers do Brasil, com o canal Lully de Verdade, além de ser parceiríssima do movimento e de produzir a websérie Verão com Menos 1 Lixo


Luisa Clasen > Lully
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