Da Cleópatra ao Carnavrau

Da Cleópatra ao Carnavrau

Publicado em:
11/3/2019
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Desde que o mundo é mundo o ser humano é fascinado por brilho. Existem registros do uso de algum tipo de glitter por toda a antiguidade. Seja usando mica (mineral natural brilhante) em pinturas rupestres de 40.000 anos atrás, como no uso do mesmo mineral misturado com insetos macerados nas maquiagens da nobreza no Egito Antigo, ou para adornar alguns templos Maias. Com o passar dos séculos e a institucionalização do patriarcado, o glitter parou de ser visto como algo para todos e virou “coisa de menina”, perdendo seu status e sinônimo de riqueza para algo que remete à futilidade e fragilidade.

Tenho uma enteada de 5 anos de idade, e tudo que ela gosta tem glitter, desde o shampoo até os desenhos animados, passando pelas roupas, esmalte e brinquedos, enquanto os meninos mais “machinhos” da mesma idade tem até medo de encostar no brilho, como se inconscientemente isso fosse os tornar menos homens. É interessante observar que eles não fazem essa distinção até se tornarem conscientes dos papéis de gênero, bebês amam purpurina independentemente do seu órgão genital.

Sou amante do carnaval desde 2013, quando comecei a frequentar os blocos de rua não oficiais do Rio de Janeiro e me encantei com essa festa onde todxs são livres e brilhantes. Nessa época, já me entupia de purpurina pra qualquer ocasião, e ouvi muitos homens pedindo pra eu passar neles “pra aproveitar aqui, já que no dia a dia se eu usar os amigos vão me zoar”.

Os anos se passaram e o mundo deu uma mudada rápida. Começamos a discutir mais abertamente questões de gênero, pessoas trans, gays e de todo o arco íris começaram a aparecer na mídia ganhando destaque, a questão da mulher negra ganhou visibilidade, os padrões de beleza foram cada vez mais sendo questionados e a sustentabilidade e preocupação com os meios de produção viraram uma pauta importante.

Com a ascensão das mulheres e LGBTQI +, nada mais natural que o glitter voltasse com tudo como símbolo desse poder que não tem medo de aparecer e chamar a atenção. E agora ele voltou sem poluir o planeta (vamos combinar que essa coisa de viver sem se importar com os danos que causamos ao ecossistema é bem coisa do patriarcado) com diversas fórmulas naturais e biodegradáveis, ou seja, voltando às origens lá do Egito Antigo, sem perder o glamour!

Sou suspeita pra falar, pois no meu caso, o glitter biodegradável literalmente mudou minha vida.

Ilustração Jimmy Lawlor

Sou arquiteta de formação e estava passando por um período muito complicado em meados de 2016, o escritório que eu trabalhava fechou e percebi que eu não queria mais trabalhar nessa área, não estava feliz e não tinha ideia do que queria fazer da vida. Nesse mesmo momento, descobri que o Glitter tradicional era feito de microplásticos, e uni meus conhecimentos de culinária vegana, minha curiosidade e vontade de brilhar sem poluir, para criar um brilho à base de ágar-ágar e mica. O que começou como uma demanda pessoal, virou coisa séria quando fiz uma página no Instagram e rapidamente comecei a receber muitas encomendas de todo o Brasil.

Tocava a empresa sozinha, mas foi através da ajuda de amigas, que sempre se dispunham a dar uma mão na produção, no envase e fazer vídeos e fotos, que fui incentivada a levar a Pura pra frente. Já no carnaval de 2018, chamei uma amiga de infância pra trabalhar comigo, Marcela de Figueiredo. Ela é designer e mãe solo de um bebê, na época com 1 ano, e não conseguia um emprego formal tanto pela dificuldade de empregarem uma mulher nessa condição, quanto pela demanda de uma criança nessa idade, que é inevitável. Obviamente, isso não foi um problema e conseguimos juntas produzir 10kg de bioglitter, vendemos pro Brasil todo e aparecemos em diversos meios de comunicação.

No meio do ano entramos num programa de aceleração de empresas Inovativa, onde conhecemos Luciana Duarte, mentora do programa, que gostou tanto da ideia que resolveu dar uma pausa em suas atividades e apostar na gente, juntas formamos uma sociedade. Três mulheres, cada uma com seus pontos fortes, suprindo os pontos fracos da outra, sem medo de empreender e dar a cara a tapa.

Alugamos uma sala, investimos o que dava, contratamos mais quatro mulheres pra ajudar na produção e retomamos os trabalhos em meados de setembro. Estamos agora à uma semana do Carnaval e eu não poderia estar mais feliz! Já produzimos quase 50kg de bioglitter (que, por sinal, é 1/3 mais leve que o glitter comum), estamos com pontos de venda por todo o Brasil e com interesse de venda em outros países da América Latina e Europa. Tudo isso graças à força das mulheres que me fazem ir adiante e do poder do Carnaval, de fazer as pessoas esquecerem as diferenças que nos são impostas e cobrir isso tudo com bastante glitter biodegradável.

Afinal, gente é pra brilhar e ser livre!  

Frances é fundadora da marca carioca de purpurina biodegradável Pura BioGlitter

Frances Sansão
Por:
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