As mulheres que semeiam sustentabilidade

As mulheres que semeiam sustentabilidade

Publicado em:
9/3/2019
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Sempre achei curioso ter mais mulheres do que homens nos fóruns da sustentabilidade. Em 2003, quando comecei a estudar Engenharia Sanitária e Ambiental em Santa Catarina, a presença feminina era quase maioria. Mesmo assim, eu sentia um desconforto. Havia um certo estranhamento nas ideias que eu trazia. Logo no primeiro trabalho que entreguei, um relatório sobre uma cooperativa de reciclagem, o professor me chamou de canto e pediu que eu refizesse. Ele disse que o foco não eram as pessoas e sim a infraestrutura da cooperativa. E disse também que não aceitava relatórios em formato de poesia e que eu devia usar um papel branco.

De todas as engenharias era essa e também a Engenharia de Alimentos as que tinham pelo menos 50% de mulheres. Nas demais, quase minoria absoluta, frequentemente oprimida e ridicularizada.

Quando olho a composição das rodas de conversa, oficinas, cursos e até mesmo do universo digital da sustentabilidade a presença feminina é marcante. São mulheres 80% das pessoas que me acompanham nas redes sociais em busca de inspiração, conhecimento e ação em rede.

É claro que a simples divisão homem/mulher é defasada, mas basta um olhar mais sensível para ver que muitos dos homens que estão conosco de verdade também trazem um olhar de valorização do feminino dentro de si próprios (ou estão desenvolvendo um ;-)). Um salve especial aqui para a comunidade LGTBQ, cada vez mais atenta e praticante de um ativismo interseccional, na busca por uma consciência transversal a todas as causas

Amém, Senhora!

Porque Vandana Shiva* é nossa pastora e nada nos faltará!

Acha que eu estou brincando? Dá uma olhadinha no que ela diz:

Porque as mulheres foram deixadas para cuidar do sustento, da vida, das crianças, buscar combustível, cozinhar...continuam conectadas à vida.... tornaram-se experts em água, sementes, comida, solo, dar a luz, bebês e diarreias. Por isso eu digo que quando se trata de vida, as mulheres são experts... experts de uma ponte para o futuro, onde teremos que voltar a vida. E agora, é hora das mulheres redistribuírem isso para a sociedade.

Acho essa fala dela uma síntese tão perfeita do ser social que somos ancestralmente, que poderíamos encerrar o artigo por aqui e voltar aos nossos afazeres heroicos! Mas vamos aprofundar um pouco mais :)

Vandana defende que o mundo seria mais sustentável se nós adotássemos um modelo de agricultura centrado no saber das mulheres, já que a lógica patriarcal linear e excludente tem produzido resultados de mais e mais degradação – vide desmatamento do Cerrado e Amazônia. Já que nós carregamos a memória celular do cuidados, estamos aptas e portanto é nossa a responsabilidade de puxar o bonde que salvará a humanidade, ou pelo menos reduzirá seu sofrimento.

Falar de Vandana me lembrou da Alice Worcman do coletivo Organicidade, no Rio. Seu interesse em cultivar PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) parte de uma indignação em relação à “monocultura da mente” e os impactos que ela produz no campo, na cidade e em nossos corpinhos.

Sim! Nossa espécie evoluiu comendo de tudo. Durante milhares de anos, coletávamos sementes e frutos. Caçávamos. Só de plantas comestíveis estimam-se que haja algo entorno de 30 mil espécies. Agora, me diz aqui em off: Quantas espécies você compra no seu dia-a-dia? Eu me esforcei para chegar em quarenta. E qual é o valor nutricional dessa comida? Infelizmente tem mais do só vitaminas e minerais. Nossa comida está cheia de venenos. Claro! Tentar manter uma única espécie vivendo num campo (monocultura) onde naturalmente habitavam de centenas de outras para funcionar bem (ecossistema), só pode dar errado! A agricultura convencional substitui a sabedoria ecossistêmica pelo combate a pragas e doenças de um sistema agrícola vulnerável e desconexo assim como nossos corpos urbanos.

Mas tem saída? Claro que tem!

Alice produz alimento em Santa Teresa, fornece até para um hotel. Mônica Ulyssea, PhD em biodiversidade já nem urbana é mais. Mudou-se para o campo e usa sua curiosidade científica para aprender com agricultoras em Tuiutí no interior de São Paulo, onde vive com Thais Ferreira, chef da roça produtora de tudo que a terra lhe quiser dar. Marina e Luísa do Pé de Feijão levam a reconexão com alimento para empresas, onde funcionários aprendem a cultivar orgânicos nos jardins corporativos. Assim como Marina Donini e Marina Matulja, para mostrar que com solo também se constrói casas!

Só de amigas minhas que estão resgatando a conexão com a terra para resignificar seus saberes urbanos, tenho mais que duas mãos cheias. Dentre elas padeiras, filósofas, bioarquitetas, costureiras, plantadoras. Todas repensando seus ofícios para romper com a monocultura da mente.

Mas o que faz essas mulheres seguirem por esse caminho não convencional, cheios de obstáculos? Não seria mais fácil manterem-se iguais? É que para além da noção clara de responsabilidade com o mundo (natural das mulheres, diga-se de passagem), praticar sustentabilidade é extremamente prazeroso! Segundo Alice, nossas células se apegam a sabedoria da natureza, com saudades do tempo que estávamos mais conectadas. Ver restos de comida se transformarem em adubo orgânico dá barato! Aos poucos, o que era analfabetismo ecológico se transforma em impactos positivos visíveis a olhos nus (e comestíveis!) e aí minhas caras, não tem mais volta!

Ilustração de Genevieve Simms

Nós somos cíclicas.

Nosso corpo conversa com a lua. Semeia a esperança e aduba a terra 13 vezes ao longo de um ano. E por favor não leiam esperança com o sentido piegas que estamos acostumadas. Falo de uma esperança que é o puro desejo fisiológico de manter a vida. Como diz o mestre Daniel Silva, carregamos a emoção da sustentabilidade. A alegria de deixar como patrimônio para as gerações seguintes, a passagem das baleias Jubarte pela costa, o canto dos pássaros, um banco super biodiverso de sementes, rios cristalinos e receitas deliciosas.

Pouco a pouco eu abandonei a prática engenharia ambiental convencional. Já não atendiam nem mesmo meus desafios profissionais mais simples. Eu precisei da educação, da agricultura, da filosofia, da psicologia e também da engenharia! Hoje eu pratico uma engenharia ambiental integrativa, que valoriza o papel do cuidado, do diálogo e da coragem de mudar.

Hoje, aos 34 anos eu tenho em mim o que preciso para mudar as estruturas, começado por mim (essa é a mais difícil)! Eu engrosso o caldo, o coro e a coragem das mulheres construtoras de pontes para um futuro mais humano, saudável, sustentável e feliz.

*Para quem não conhece, Vandana Shiva é uma mulher indiana de 66 anos, cientista, filósofa e ecofeminista. Compõe o seleto grupo das referencias atuais na fronteira do pensamento em colaboração com ativistas ao redor do mundo todo incluindo professores da Schumacher College, U.K.. Ela é fundadora do Bija Vidyapeeth, escola internacional de sustentabilidade. Há dezenas de vídeos e livros dela disponíveis. Procurem saber: http://www.vandanashiva.com/

Aline é engenheira ambiental e dona de um dos instagrams mais divertidos e com conteúdo de qualidade pra quem ama sustentabilidade

Aline Matulja
Por:
meio
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Em 1º de Janeiro de 2015 nascia o Menos 1 Lixo, um desafio pessoal da Fe Cortez, de produzir menos lixo e provar que atitudes individuais somadas constroem um mundo mais sustentável.

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