Mulher: o poder ser e o poder de ser

Publicado em:
15/3/2019
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Nascer mulher é um ato político.

Era 2009, num verão incomum na divisa de Belo Horizonte com Sabará, em Minas Gerais. Eu tinha 13 anos e estava vestindo um short de pijama com um top de ginástica. Vendo televisão na sala, lembro da minha mãe me dizendo com afeto, “vai colocar uma blusa que já já vem uns amigos do seu pai em casa jogar peteca”. Eu obedeci sem muito questionamento, afinal, a ideia de ter homens de 40 e tantos anos vendo meu corpo exposto me arrepiava a nuca - mesmo sendo uma criança.

O que me intrigou ao ponto dessa memória ainda estar gravada em mim é que meu irmão estava sentado do meu lado, também com muito calor, usando um short e sem camisa, não ter escutado a mesma coisa.

Por uma mulher, eu fui objetificada como mulher - em prol de homens. E eu entendo. Mas escute bem, isso não é sobre uma guerra de sexos, nem sobre como eu cresci tendo mais imposições e limitações que meu irmão pelo simples fato de ter nascido com uma vagina entre as pernas. Se trata de um auto questionamento sobre minha relevância e papel social começando dentro da minha própria casa.

É difícil ser mulher. Mas é maravilhoso.

Eu não nasci feminista, mas cresci com os privilégios de tantas eras de ativismo pela nossa resistência e existência. É difícil ser mulher no Brasil e em qualquer lugar no mundo porque essa condição biológica em um estereótipo já te vulnerabiliza pelo social, pelo econômico, pelo físico, pelo intelecto. De uma perspectiva energética, a mulher é a receptividade, o útero, a que carrega, nutre, aguenta. A mulher é o yin, lado escuro - porém não um escuro negativo que pesa. E sim um escuro do mistério, da fertilidade, profundeza, introspecção e intuição. Somos gaia porque somos mães naturais. Não necessariamente de um ser humano, mas de situações, pessoas, lugares que abraçamos intuitiva e sensivelmente.

Somos empatia. Isso talvez pela forma que a sociedade foi moldada desde os primórdios da humanidade tendo a mulher como instrumento exclusivo de reprodução ou talvez pela nossa carga ancestral da força, da espera e do berço. Sagrado. Difícil apontar com precisão. Mas hoje eu sei: ser mulher me fez ser livre. Mudei para São Paulo aos 18 anos pra estudar arte. Era a primeira vez que eu fazia tudo sozinha. Pegar metrô, cozinhar, trabalhar, arrumar casa, estudar, namorar e viajar. Tenha sido um dedo de ingenuidade, um pouco de impulsividade do meu sol em Áries ou só a necessidade de provar pra mim mesma que eu era capaz: me comprometi a viver a vida que eu quisesse e nada me impediria. Minha orientação sexual, meu gênero, minha origem, minha condição financeira, minha cor de pele. Nada e em nenhum lugar do mundo. Mesmo já com tantos privilégios e facilidades sociais comparadas a outras mulheres, senti meu coração saindo pela boca a 1ª vez que decidi responder a um assédio na rua. Minha perna tremeu, a pele arrepiou mas não me calei. Me senti dona de mim e percebi que meu corpo não é público e eu tenho o direito de defendê-lo. Me veio a memória do primeiro assédio que eu lembro ter passado aos 11 anos, indo pro cursinho de inglês no meu bairro. Andava sozinha e um homem lá pelos seus 50 anos me gritou “nunca tive uma morena dessas”, foi constrangedor e bizarro entender que ele falava de mim. Um homem do seu lado o respondeu “e nunca vai ter, olha como ela anda”. Desde então passei a andar olhando pro chão. Até começar a usar fones de ouvido. E eventualmente óculos escuros, pra fingir não ver, escutar e evitar essa sensação de animal em zoológico.

Proteção. Depois da primeira vez que respondi ao assédio em 2014, parei de fazer isso. Andar olhando pra frente se tornou um escudo e mesmo ainda engolindo seco várias vezes, eu não baixo a cabeça - não mais. Me doía ver mulheres andando e perceber esse padrão - o de literalmente olhar pro chão. Assim nos diminuímos, reprimimos, sofremos caladas e passamos de receptivas, acolhedoras e intuitivas a saco de pancadas e depósito de masculinidade frágil. Vivemos à margem do machismo estrutural e a caminhada ainda é longa pra quebrar esse padrão de comportamento, começando laaa pelo “menino veste azul e menina veste rosa”. É um bola de neve, entende? Assim como a primeira vez que você se sente forte. É tão única a sensação, que você quer expandi-la. E eu a tenho expandido.

Por isso sei que você, mulher, é capaz de tomar as rédeas do seu próprio poder também. E você, homem, é capaz de rever seus conceitos e criar consciência da sua liberdade dada desde nascença.

Nascer mulher é um ato político porque você já vem ao mundo tendo que conquistar seu espaço para ser ouvida, reconhecida, respeitada e só então, admirada. Eu sou mulher e sou viajante sola simplesmente porque eu quis e aprendi que poderia. Quando se pergunta a um homem que viaja por conta própria “qual seu maior medo?” ele provavelmente responderá: cair de uma trilha ou ficar sem dinheiro. À uma mulher já perguntam “você não tem medo de ser sequestrada ou estuprada?”. A realidade é que esse medo existe em qualquer lugar, dentro de casa na sua própria cidade ou no interior do Alaska numa cidade de 10.000 habitantes. Ser mulher é sua identidade aonde quer que vá. Mas isso não deveria te fazer deixar de ir. E tenho ido, com meus ideais, estilo de vida e, mais importante ainda, levando outras mulheres comigo.

Ser mulher me fez amar a Terra e me amar. Sempre me importei com causas sociais e, acima de qualquer outra, causas socioambientais. Me tornei vegana em 2017, e desde então criei uma relação ainda mais próxima com a natureza. Minha motivação principal era a sustentabilidade. É sobre procedência, modo de uso, descarte e destino. Assim como tudo na vida, é preciso estar consciente de cada um desses procedimentos, e isso inclui a relação com nós mesmas.

O que eu não sabia sobre o veganismo, além dos efeitos positivos na saúde e no planeta, era que as vacas fêmeas são inseminadas artificialmente com um bastão de metal para reproduzirem de forma compulsória, e, assim, gerar mais leite para a indústria. Além disso, o bezerro que nasce macho é destinado à produção de carne de vitela sendo encarcerado ainda filhote num local minúsculo e escuro para que a pele fique anêmica, branca e macia - para consumo humano.

Eu como mulher e aspirante a viver a maternidade, vejo isso como desumano. Isso me fez mais firme nos meus ideais. Ao me tornar vegana e então adotar um estilo de vida sustentável, low waste, low cost, slow fashion e slow living me senti muito mais conectada com minhas próprias raízes. É da natureza feminina se importar. Um, por todos os fatores biológicos, históricos e energéticos da nossa existência. Dois, pelo contexto social a que somos submetidas diariamente.

Por isso, me importar E fazer algo a respeito também me empoderou. Ter a voz que me foi concebida nas redes sociais me fez amar a mim mesma e passar pelo processo de descoberta da minha missão nessa vida. É preciso ocupar os espaços que nos disseram que jamais seriam nossos. Por isso hoje tenho orgulho em dizer que sou mulher, porque o espaço em que vivo, a forma que me porto e as ideias que transmito em liberdade foram conquistadas por mim, graças a tantas outras mulheres que lutaram antes mesmo de eu chegar nesse mundo. Por isso sigo forte para que as mulheres que estão vindo não tenham mais que lutar para chegar aonde querem. Eu espero que elas só cheguem - porque elas podem.

E você também.

Feliz dia de ser! Sou do seu lado.

Luisa é viajante sola, vegana e compartilha sua vida em seu canal do youtube
Luisa Moralieda
Por:
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