Os oceanos estão em perigo. E nós também.

13/3/2018

Por Fe Cortez

Essa é a mensagem central de tudo o que ouvi durante 3 dias de conferência no World Ocean Summit, um fórum promovido pela revista The Economist, em Cancún, que reuniu mais de 300 lideranças internacionais, empresários, ativistas, ONGs e acadêmicos. E esse é o mote da nova série que estreia em abril no Menos 1 Lixo, Mares Limpos, mesmo nome da campanha da ONU da qual sou defensora. Pra termos mares limpos, é importante primeiro entender o que está poluindo nossos oceanos, e como evitar que isso aconteça. E minha investigação para a série começa aqui.

O fato de ter sido promovido por uma revista cujo teor é a economia, traz para esse fórum um viés diferente daquilo que tenho acompanhado por aí, porque o ponto de vista central desta vez não era o das pesquisas que apontam que se não mudarmos a forma como usamos descartáveis, teremos mais plásticos do que peixes nos Oceanos em 2050. Ou que já temos hoje 8 milhões de toneladas de plástico descartadas anualmente nos mares pelo mundo. Tudo isso foi dito sim, e relembrado por pessoas como Emily Woglom, vice-presidente da Ocean Conservancy, uma entidade que há 30 anos mapeia o que está acontecendo nos oceanos e atua junto às empresas na tentativa de mudar o rumo das previsões, que são todas muito assustadoras. Mas também foi posto na mesa o ponto de vista das empresas, aquelas responsáveis por produzir e distribuir o que vira lixo, e que não podemos deixar de lembrar, nós consumimos, e a abordagem é um tanto curiosa, se posso dizer isso.

Muito foi falado sobre pesca, excessiva que está colocando em risco diversas espécies de peixes, o que compromete mais de 1 bilhão de pessoas que dependem dessa economia pra viver. Mas vamos focar aqui na questão dos plásticos, já que falamos por aqui de Menos 1 Lixo.    

GESTÃO DE RESÍDUOS

Esse foi um tema falado muitas, muitas vezes. A visão de vários empresários do setor do plástico, ou de empresas que utilizam muito essa matéria-prima como a Coca Cola, é que o problema não é a quantidade de plástico que colocamos no mundo e sim a falta de gestão de resíduos, coleta, nas cidades, para que todo esse plástico possa ser reciclado. O fato é que 80% do lixo presente nos mares hoje, vem da terra, e uma enorme quantidade dele, vem de rios, em lugares como a Ásia, onde o “progresso” está chegando, e com isso o consumo aumentando, mas como na maior parte dos países em desenvolvimento, a infraestrutura não acompanha a chegada desse “progresso”. Temos sim uma questão de infraestrutura, mas com certeza temos uma grande questão de quantidade. Negar os fatos ou assumir que a reciclagem vai resolver todos os problemas é um tanto quanto otimista, ou até perverso, porque coloca mais uma vez a responsabilidade em uma terceira parte, no caso os governos.

Um das mesas que muito me chamou atenção era um painel de discussão chamado “Aumentando o sistema de gestão de resíduos nas cidades”. Nela estavam presentes David Clark, VP de sustentabilidade da Amcor, uma das maiores fabricantes de embalagens plásticas do mundo, Lisa Emelia Svensson, Diretora da ONU Meio Ambiente, Rob Kaplan, representando a Closed Loop Partners, uma empresa que investe em gestão de resíduos e reciclagem em cidades, e Richard Northcole, da Covestro, uma empresa nova, que produz polímeros de alta tecnologia (leia-se vários plásticos, mas nenhum deles destinado a produzir descartáveis). A mesa se propunha a discutir como aumentar a taxa de reciclagem nas cidades, sim, ainda estamos falando em reciclar, quando a economia circular está aí dizendo que a reciclagem diminui o valor dos materiais, e muitas vezes a qualidade desses materiais. O curioso é que não havia um representante de cidades, seja de governos ou se sistema de limpeza urbana. Como discutir esse tema no meio de empresários interessados em vender plástico? Pois é, também não sei muito como explicar. A Amcor lançou ano passado um compromisso global no qual se compromete em colocar no mercado apenas embalagens recicláveis ou reutilizáveis até 2025. Pra isso, ela se juntou à Ellen MacArthur Foundation, uma fundação de economia circular que trabalha com diversas empresas para auxiliar nessa transição da economia linear que cria coisas com objetivo delas virarem lixo, para a circular, onde essas mesmas coisas são desenhadas para retornarem ao mercado. Se você nunca ouviu falar nisso, vale assistir a esse vídeo aqui:

 

E o David, em entrevista para mim, assumiu que o assunto é novo, e que eles ainda não sabem como resolver o problema de seus produtos serem assassinos em série de milhares de espécies.

RECICLAGEM AO INVÉS DE REDUÇÃO

Em outro painel, Ben Jordan, VP de sustentabilidade da Coca Cola, dividiu as falas com Alexis Haas, da Adidas, David Lear, da Dell, Frederic Michel, da Sky Ocean Ventures, e Erin Simon, do WWF. A Coca Cola se comprometeu em até 2030 recolher e reciclar todas as embalagens que coloca no mercado, ou equivalentes, para cada garrafa PET colocada, uma ser retirada e reciclada, mesmo que de outra marca. A iniciativa é maravilhosa, mas 2030, é muito longe. Alguns especialistas afirmam que temos apenas 5 anos pra mudar esse panorama.

A Sky por outro lado, se comprometeu a não ter nenhuma embalagem de plástico descartável em seus produtos, ou descartáveis em suas instalações até 2020. E afirmou com muita segurança que isso é perfeitamente viável.

Quando perguntado por mim sobre latas, ao invés de PET, principalmente no Brasil, Ben respondeu que optar pelo plástico era uma estratégia mundial da empresa, porque os consumidores querem ter muitas opções de embalagens. Será mesmo? Ou será de fato uma questão de preço? O plástico é muito mais barato que o alumínio, e também tem valor de mercado infinitamente menor, então jogar na conta de nós consumidores que a gente quer embalagens de plástico é um pouco forte.

NOVAS TECNOLOGIAS

Já a Dell e a Adidas têm programas de retirar plástico dos oceanos e transformá-los em outros produtos. Tênis e roupas no caso da Adidas, e embalagens, no caso da Dell, que continuam se transformando em lixo, vamos combinar.

A Adidas, segundo seu CEO citado pela Alexis, “é uma empresa de plástico” já que as roupas, acessórios e tênis vendidos por eles têm em suas bases polímeros vindos do petróleo, e por isso também se preocupam que esse plástico todo acabe nos oceanos. Eles produziram em 2017, 1 milhão de pares de tênis feitos de redes de pesca e plástico retirados dos oceanos, e esperam vender 5 milhões em 2018. A questão é que implementar toda essa cadeia de logística reversa ainda é muito caro e uma estrutura precisa ser montada. Se por um lado sobram redes de pesca e plásticos às toneladas nos oceanos, a tecnologia e pessoal pra retirada ainda não existem.

Em nenhum momento algum deles negou que o problema existe, e ambas as empresas estão sim se movimentando para mudar, a única questão é o tempo da mudança.

PRECISAMOS RENEGOCIAR NOSSA RELAÇÃO COM O PLÁSTICO

Em um dos painéis que mais me chamou atenção, Emily Woglom, Vice Presidente Executiva da Ocean Conservancy, colocou talvez o ponto mais sensato em toda a conferência, no que diz respeito ao plástico nos oceanos, que precisamos renegociar nossa relação com o plástico. Nesse painel estavam presentes John Hayes, CEO da Ball, maior produtora de latinhas de alumínio, que são infinitamente recicláveis, e no caso do Brasil têm índices de reciclagem na casa dos 98%, Fernando Musa, presidente da Braskem, maior produtora de plástico do Brasil, das Américas e uma das maiores do mundo. Por um lado Musa tentava convencer as pessoas da necessidade absoluta do plástico nas nossas vidas por ele ter permitido um avanço impensável na civilização e diminuição de emissão de CO2, porque como ele afirmou, um carro com muitas partes feitas de plástico é muito mais leve, e consome muito menos combustível, logo, emite muito menos gases de efeito estufa. Sim, estamos todos de acordo nesse ponto Musa, mas precisamos mesmo de sacolinha de mercado, canudinho e copinho descartáveis de resinas plásticas sem nenhum valor de mercado? Eu digo que não, a Emily diz que não, e diversas pesquisas pelo mundo dizem que não. Argumentar que o plástico é fundamental nesse ponto é distorcer a questão, porque até onde eu tenho visto, pesquisas não apontam que plásticos de carros ou de bens duráveis são a grande ameaça, e sim os descartáveis, single use plastics, que têm uma vida útil de uso de menos de 10 minutos. 35% de todo o plástico usado no mundo é usado por apenas uma vez, por até 20 minutos.

Pra mim, o que fica claro depois de 3 dias intensos de discussão a respeito de como solucionamos a questão no que diz respeito aos plásticos, é quem paga essa conta, porque no final é isso, o plástico só é baratinho porque ele não paga pelas externalidades, que são seus efeitos colaterais. Matar milhares de vidas marinhas é apenas um deles. Chegamos em um momento em que os dados estão aí, não dá mais pra negar. Como muito bem colocou o ex presidente da Costa Rica, e fundador do Ocean Unite, que promoveu esse fórum junto com a The Economist, José María Figures, metade do oxigênio que respiramos vem do mar, cerca de 1 bilhão de pessoas no planeta dependem do ecossistema dos oceanos como fonte primária de proteína, e mesmo sendo o maior ecossistema do mundo, conhecemos menos de 5% desse universo.

O oceano une o planeta inteiro, ele é um só, como nós somos um só. E para que possamos continuar vivendo acima da superfície das suas águas, precisamos respeitar, recuperar e agir agora pra preservar o que está embaixo dessas águas, afinal de contas, o plástico não asfixia só peixes, ele é um sintoma de uma sociedade que descarta tudo, inclusive aquilo que a faz viver, o meio ambiente.

Por isso precisamos repensar a forma como existimos enquanto sociedade, e todos precisam estar nessa mesa de discussão. Aqueles que querem manter seu conforto do copinho descartável pra viagem, aqueles que produzem esse copinho e aqueles que criam as leis e infraestrutura pra recolher esse copinho. Ou seja, precisamos sentar e negociar todos, sociedade civil, governos, empresas e academia.

E a nossa parte? Pressionar pra que as mudanças aconteçam. A pressão popular é que vai mudar o jogo. E essa foi a segunda maior mensagem do Forum, a de que juntos somos mais fortes e conseguiremos sim mudar esse jogo.

Que 2018 seja lembrado como o ano em que o planeta se uniu e a virada começou, vamos nessa? Comece assinando seu compromisso de eliminar um desses descartáveis da sua vida, clicando aqui. E aproveita pra chamar mais 10 amigos pra fazerem o mesmo. Somos todos protagonistas nessa história, e temos a mesma força pra escrevê-la, apesar de nunca terem contado isso pra gente...

 

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Em 1º de Janeiro de 2015 nascia o Menos 1 Lixo, um desafio pessoal da Fe Cortez, de produzir menos lixo e provar que atitudes individuais somadas constroem um mundo mais sustentável.

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